Nesse
ano novo desejo a todos conquistas reais e não sonhos impossíveis
Desejo
que a miséria diminua, ainda que seja muito pouco
Que
as pessoas se livrem da grande mídia e leiam poucas coisas, mas boas
Que
o individualismo se torne menos opressivo e a fraternidade lance sua semente
Desejo
que a vida humana valha mais que o bem privado
Que
a dor do outro nos incomode insistentemente
Que
a fome de uma criança seja vista com preocupação, quiçá de todas elas
Desejo
que o preconceito, a ignorância e a arrogância percam fôlego
Que
dinheiro, carros e marcas caras não se transfigurem em felicidade
Que
a desigualdade gritante seja vista como descalabro
Desejo
que a injustiça não se torne naturalmente moral
Que
a censura não volte a reinar e que o embate de ideias seja profícuo
Que
programas televisivos de domingo sejam ceifados de nossas vidas
Desejo
que todo ser humano possa se alimentar diariamente
Que
todos possam se aquecer embaixo de um teto, sem abraçar a morte fria
Que
nenhuma ave carniceira se alimente de crianças vivas e inertes pela desnutrição
Desejo
que a ânsia por lucro não permita que africanos sejam cobaias de multinacionais
Que
façamos algo para mudar esse mundo insano, habitado por ilhas humanas
Que
as pessoas não sejam obcecadas por si
Desejo
ação, vontade, discussões, embates, para ao menos um mínimo de mudança
Desejo,
mais que tudo, que votos de ano novo vazios, subjetivos e inócuos evaporem
Neste
novo ano, desejo que não haja felicidade, sorrisos, alegria e paz plenos
Enquanto
todos não puderem sentir um pouco disso tudo
Afinal,
do que vale tanta abstração nos regozijos putrefatos da comilança descontrolada
Se
ainda existir no mundo, pelo menos uma criança que não pode sorrir.
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