segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Belo Monte (PA): onde os fracos não tem vez


O governo anunciou a liberação da construção da Usina Belo Monte no Pará. Mais uma vez a população brasileira se cala frente aos descalabros da política nacional. Esta usina vai custar bilhões de reais, grande parte financiado pelo erário público, mas entregue nas mãos do setor privado, que vai ganhar fortunas. Sem mencionar o caos socioambiental evidente, denunciado por centenas de especialistas e já em turno na região: violência, assassinatos, revoltas, desemprego, destruição da fauna e da flora.
            As populações indígenas e ribeirinhas estão sendo ignoradas no processo, como se não existissem. Mulheres, crianças, jovens, idosos, todos estão diante da destruição anunciada de sua história, de suas raízes, de seu lar e de sua possibilidade de sobrevivência. E ninguém levanta sequer um dedo contra isso. Enquanto se discute futebol e jovens estúpidos se matam nas ruas das cidades por times que sequer sabem de sua existência.
            Se de fato fosse resolver o problema energético do país e tivesse uma política social real, até poderia se considerar a instalação de Belo Monte, porém, está mais do que evidente de que se trata de mais um elefante branco. Com gastos previstos em torno de R$ 30 bilhões, dos quais 80% serão financiados por décadas pelo BNDES, com juros irrisórios, para a concessionária vencedora. Ou seja, os impostos pagos pela população serão entregues nas mãos de uma empresa privada, quase de graça, para que ela lucre mesopotâmicamente. Durante quase metade do ano, Belo Monte vai produzir como qualquer pequena usina, pois o rio Xingu se encontra em baixa. Portanto o mito de “salvação” se trata de tremenda balela (mentira mesmo!).
            O que muitos denunciam é que esse projeto evidencia mais uma política antissocial do governo, que se rende ao setor privado, já que este financia campanhas com vultosas contribuições. No fundo, os políticos não representam a sociedade, mas seus financiadores. Pouco se importam com as pessoas mergulhadas no desespero por terem suas moradias, vidas e trabalho escorrendo entre os dedos, sem nada poder fazer.
            O assunto é muito complexo para um artigo de jornal, por isso finalizo com algo palpável: o relato da dona Maria José (Caros Amigos, n°173), que perdeu tudo durante a construção da usina Estreito em Tocantins (projeto bem menor que Belo Monte). “Eles chegaram aqui de uma hora pra outra e derrubaram a casa, jogaram tudo que tinha bem aí. Não é fácil, morei a vida inteira ali, tinha tudo plantado, criei os filhos. Eu me escondi no mato pra não ver eles derrubando a casa, porque a gente fica nervosa né... Eu e meus meninos, todo mundo sofrendo. Pobre tem uns caquinho velho, mas pra gente é importante. Mas aí vieram com o trator, derrubaram, fizeram um buracão e enterraram. Quando eu cheguei, botei a mão no cabelo e fiquei chorando. E um monte de gente olhando. Aí nós dormimos mais ou menos duas semanas embaixo de um pé de manga e depois fizemos o barraco de palha, ficamos um ano embaixo da lona. Depois disso adoeci e nunca mais fiquei boa”.
            Dona Maria José não recebeu nenhuma indenização e segue sua vida incógnita, invisível, como milhares de outras pessoas esquecidas pelo governo, mas com mais dificuldades do que antes. Está aí um mínimo prelúdio do que ocasionará Belo Monte. Desde já, o sol se põe de maneira triste no rio Xingú, contudo, não mais triste que esses seres humanos já sofridos, agora carcomidos pela certeza da desgraça.

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